Aula 11

AS CIDADES DE REFÚGIO

Texto Básico: Josué 20:1-9

15/03/2009

“Disse mais o Senhor a Moisés: Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando passardes o Jordão para a terra de Canaã, escolhereis para vós cidades que vos sirvam de cidades de refúgio, para que se refugie ali o homicida que tiver matado alguém involuntariamente. Serão seis as cidades que haveis de dar por cidades de refúgio para vós” (Nm 35:9-11,13).

CONSIDERAÇÕES IMPORTANTES

Nesta aula vamos estudar o capítulo 20 do livro de Josué, que apresenta a localização e o estabelecimento das 06 cidades de refúgio dentre as 48 cidades dos levitas. Observe que na aula anterior estudamos o capítulo 14, que dispõe sobre a vida de Calebe, concernente à sua fé, obediência e confiança em Deus, bem como à sua exemplar perseverança em conquistar a terra que o Senhor tinha lhe prometido.

Deixamos de estudar os capítulos 15 a 19 do livro de Josué, que destacam a divisão da terra prometida às tribos que ainda não tinham recebido: nove tribos e a meia tribo de Manassés. Mas, vale aqui algumas considerações importantes para que não fique uma lacuna no estudo deste trimestre sobre o livro de Josué.

Apesar de grandes áreas de Canaã ainda estava para ser conquistada – “ainda fica muitíssima terra para se possuir”(Josué 13:1) - mesmo assim Deus lhes garantiu que a terra seria de Israel, cuja condição era a obediência aos seus mandamentos. Ele determina a Josué que fizesse a distribuição das terras às tribos que ainda não tinham recebido herança, inclusive estabelecendo as cidades de refúgio. Antes, porém, reconhece o pedido do grande velho guerreiro Calebe, que 45 anos antes espiou Canaã com Josué e insistiu com Israel para tomar a terra (Número 14). Calebe, agora com 85 anos, reivindica Hebrom, uma terra fértil, mas solidamente fortificada e ocupada pelos enaquins (gigantes).

Veja algumas considerações importantes:

a) Muitíssima terra para se possuir (13:1). Josué foi bem-sucedido como líder. Obedeceu completamente as ordens de Moisés (11:15) e, apesar de muita terra em Canaã não ter sido conquistada, ele está agora para dividi-la entre os israelitas. Josué é o modelo de líder bem-sucedido, e um desafio para os líderes que o seguirão. Unicamente por obedecer ao Senhor tão completamente como Moisés, Israel poderia ter a esperança de tomar o ainda ocupado território.

Nenhuma tarefa de líder é jamais terminada. Cada geração tem novos desafios de fé. A única coisa de valor que podemos passar aos outros é que a fidelidade a Deus é que traz a vitória.

b) A distribuição por sorteio(15:1). A responsabilidade da distribuição da terra não coube apenas a Josué. O sumo sacerdote Eleazar e os chefes de cada tribo participaram na distribuição das terras. O local de cada tribo foi determinado por sorteio, como Moisés orientara (Josué 14:2); e isso era determinação do Senhor: “Todavia a terra se repartirá por sortes”(Num 26:55); com isso, seria evitado as disputas humanas e haveria a certeza de que Deus estava dirigindo o processo, vindo, portanto, do Senhor a parte que caberia a cada tribo. Depois que cada tribo soubesse o local que herdaria, devia sentir-se livre para continuar conquistando o espaço que lhe havia sido designado.

A tribo de Levi havia sido separada para os serviços do santuário. Por isso, não participou da divisão das terras, nem das guerras de conquista. Mas nem por isso os membros dessa tribo ficaram sem herança. Foram feitas provisões para que 48 cidades, em diferentes partes do país, constituíssem o local de habitação dos levitas. Deus não deixaria Seus fiéis servidores sem o que lhes era devidos.

A distribuição da terra por sorteio tem grande significado. Aparentemente o mesmo processo foi usado para determinar as terras do clã e família dentro das tribos. Como Deus controlou a ocupação da terra, cada família sentiu que Deus havia pessoalmente garantido suas propriedades. Essas terras de família não deviam ser vendidas, mas podiam ser arrendadas por um máximo de 50 anos, antes de serem devolvidas aos proprietários originais(cf. Lv 25). Por todo o Antigo Testamento, corre o profundo sentimento de que a terra de um indivíduo comprova o seu relacionamento pessoal com Deus e de que a possessão da Terra Prometida é um testemunho da posição única de Israel, como nação escolhida de Deus.

c) A justiça à frente da tradição(17:3,4 - Zelofeade, porém, filho de Hefer, filho de Gileade, filho de Maquir, filho de Manassés, não teve filhos, mas só filhas; e estes são os nomes de suas filhas: Macla, Noa, Hogla, Milca e Tirza. Estas, pois, se apresentaram diante de Eleazar, o sacerdote, e diante de Josué, filho de Num, e diante dos príncipes, dizendo: O Senhor ordenou a Moisés que se nos desse herança no meio de nossos irmãos. Pelo que se lhes deu herança no meio dos irmãos de seu pai, conforme a ordem do Senhor).

Embora não fizesse parte da tradição as mulheres herdarem propriedades na sociedade israelita, Moisés colocou a justiça à frente da tradição e deu a estas cinco jovens as terras que lhes pertenciam por direito de herança (leia Nm 27:1-11). De fato, Deus mandou que Moisés adicionasse uma lei que ajudaria outras mulheres em circunstâncias semelhantes a possuírem propriedades também. Josué agora colocava em prática esta lei.

É fácil recusar-se a atender um pedido razoável porque “coisas assim nunca foram feitas”. Mas, como Moisés e Josué, é melhor olhar cuidadosamente para o propósito da lei e os méritos de cada caso antes de decidir.

d) A insensatez de Manassés(17:12-13). A decisão da tribo de Manassés de submeter os cananeus em seu território, para forçá-los a trabalhar no lugar de exterminá-los, prefigura a falha de Israel em seguir as instruções de Moisés após a morte de Josué. Essa falha conduziu à corrupção religiosa e moral, porquanto as práticas dos cananeus foram adotadas e resultaram em séculos de opressão descrita em Juizes.

e) A queixa de Manassés(17:14-18). Esses versículos apresentam a deterioração da fé. O povo de Manassés queixa-se de não ter território suficiente, e requer mais das terras conquistadas. Querem uma vida fácil, sem desafios. Josué lhes diz para tomar dos cananeus a terra de que necessitassem, mas a tribo de Manasses contesta, declarando-se incapaz de derrotar tropas com carros de ferro (o oposto de Calebe). Como nos esquecemos rapidamente! Que Deus nos dê coragem para nos mantermos crentes, mesmo que a vida continue nos levantando novos desafios.

e) Israel mudou seu centro religioso de Gilgal para Siló(18:1,2). Com a maior parte da terra prometida conquistada, Israel mudou seu centro religioso de Gilgal para Siló. Provavelmente trata-se do primeiro local onde o Tabernáculo foi permanentemente instalado. A tenda da congregação fazia parte do Tabernáculo e foi o local onde Deus viveu entre o seu povo(Ex 25:8). Esta localização central facilitava a frequência das pessoas aos cultos de adoração e às festas anuais.

A família de Samuel, sacerdote, profeta e Juiz, costumava viajar para Siló, e ali ele foi consagrado quando ainda era um menino(1 Sm 1:3,22). O Tabernáculo permaneceu em Siló durante o período dos juízes (mais ou menos 300 anos). Aparentemente a cidade foi destruída pelos filisteus quando a Arca da Aliança foi capturada(1 Sm 4 e 5). Siló nunca esteve à altura de sua reputação como centro religioso de Israel, segundo referências bíblicas posteriores que apontam a impiedade e idolatria da cidade(Sl 78:56-60; Jr 7:12-15).

f) Por que se estabeleceu fronteiras ao invés de transformar a Terra Prometida em uma nação única? Existiam várias razões para que estes limites fossem estabelecidos, tais como: (a) as fronteiras davam a cada tribo a propriedade de uma área a fim de promover lealdade e unidade que fortaleceriam cada tribo; (b) as fronteiras delineavam áreas de responsabilidade e privilégio, que ajudariam cada tribo a se desenvolver e amadurecer; (c) as fronteiras reduziam os conflitos que poderiam ocorrer inesperadamente, caso todos escolhessem as mesmas áreas para viver; e (d) as fronteiras cumpriram a prometida herança para cada tribo, que começou a ser dada nos dias de Jacó(Gn 48:21,22).

Tendo sido feito estes esclarecimentos sumários sobre a distribuição da Terra Prometida, passemos agora a estudar os tópicos propostos para esta aula nº 11.

INTRODUÇÃO

Depois que o povo de Israel se instalou definitivamente em Canaã e na Cisjordância (onde foi instalada a tribo de Rúbens, Gade e a meia-tribo de Manasses), com o estabelecimento de fronteiras dentro dela (Josué 19:49), os vínculos tribais ficaram bastante fortes. Assim sendo, se uma pessoa de uma tribo matasse um membro de outra tribo, mesmo que por acidente, devia-se tomar vingança de sangue, tirando a vida de um membro da tribo ofendida(Nm 35:19). Onde quer que encontrasse o criminoso, ele podia matá-lo, e não seria punido por isso. Hoje diríamos que isso era "fazer justiça com as próprias mãos". Mas, e se a morte de alguém acontecesse por acidente? Seria justo uma pessoa ser punida se não teve intenção de matar? Para proteger as pessoas que se encaixavam nesse caso, Deus determinou a escolha de seis cidades de refúgio dentre as cidades dadas aos levitas (Josué 20:1; Nm 35:6, 13). Quando ficava comprovado que uma pessoa matara sem intenção, ela podia fugir para um desses lugares. Como deviam ser cidades de fácil acesso, três delas ficavam de um lado do Jordão e três do outro(Nm 35:14). Curiosamente, elas estavam distribuídas de maneira que a pessoa que estava fugindo gastasse menos do que 01(um) dia de viagem para chegar.

O caso da pessoa acusada era julgado na entrada da cidade. Se não fosse culpada, ela era recebida ali. Mas a proteção era garantida apenas enquanto estivesse dentro dos limites da cidade. Se saísse, corria o risco de encontrar-se com o vingador e então perder a vida. Ninguém seria responsabilizado por sua morte se a pessoa desatendesse as regras de segurança. Para que a acusação contra uma pessoa fosse válida, era necessário o depoimento de pelo menos duas testemunhas(Nm 35:30). Se ficasse comprovado que o assassino agira intencionalmente, nada poderia livrá-lo da punição. Porém, as cidades de refúgio representavam a salvação para os inocentes, que não deviam perder tempo. Tinham que deixar para trás tudo o que lhes era valioso – família, amigos, bens – para buscar segurança.

Essas cidades apontavam para o refúgio que só Jesus oferece. Através do seu sangue, Ele nos mostra um lugar seguro, onde todos os que quiserem estarão protegidos para sempre do pecado e da morte. “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia”(Salmo 46:1).

I – AS CIDADES DE REFÚGIO E SEUS PROPÓSITOS(Js 20:2-6)

1. As cidades dos levitas(Nm 35:1-5). Conforme está escrito em Números 18:20-24 os levitas não herdariam qualquer parte da Terra Prometida, pois o próprio Deus era a sua herança(Num 18:20). E se os levitas não iam receber herança na terra de Canaã, onde morariam? Bem, conforme o texto sagrado, quando da repartição das terras entre os filhos de Israel, os levitas foram contemplados com quarenta e oito cidades, dentre as quais seis de refúgio(Josué 21:41; Num 35:7) para acolhimento do homicida que matasse alguém involuntariamente(Nm 35:6,15; Dt 4:41-43), sendo três de cada lado do Jordão. A oeste do Jordão ficava as seguintes cidades: Quedes, na Galiléia; Siquém, em Efraim; e Hébron, no território montanhoso de Judá. A leste do Jordão ficava: Bezer, no território de Rubem; Ramote, em Gileade; e Golã, em Basã.

Os levitas haviam sido separados para o Senhor em lugar de todos os primogênitos de Israel(Nm 3:41). Serviam ao Senhor auxiliando os sacerdotes no culto, e não possuíam um território para se mesmos, diferentemente das outras tribos. As demais tribos teriam que lhes fazer a doação dessas 48 cidades, proporcional ao número de cidades que pertencesse a cada uma delas. Além disso, os arredores dessas cidades, de mil côvados ao redor, seriam para o gado, para os rebanhos e para todos os animais dos levitas. Isso significava que os levitas tinham ao redor de cada cidade uma grande área de terra para o gado, para os rebanhos e para todos os seus animais (Nm 35:1-8).

Os levitas tiveram grande importância na vida religiosa de Israel, mesmo que não ministrassem diretamente no culto. Sua tarefa era executar os serviços que permitiam aos sacerdotes exercerem seus ofícios. Ensinavam a Lei e, por meio deles, o Tabernáculo era transportado e montado. A ira divina não chegaria ao povo por causa da posição dos levitas em torno do Tabernáculo(Nm 1:51,53). Participaram da parte musical no culto e foram tidos por mais santos que os sacerdotes por ocasião do restabelecimento do culto no reino de Ezequias(2Cr 29:34).

Vejamos, em resumo, alguns aspectos significativos sobre as cidades de refúgio:

a) O que as cidades de refúgio representavam? As cidades de refúgio representavam, em linguagem jurídica de hoje, um "habeas corpus" a favor do homicida involuntário (crime culposo), ou cujo crime não tivesse sido apurado adequadamente. Em caso de homicídio, pela lei, caberia ao parente mais próximo do falecido a responsabilidade de aplicar a "Lei de Talião" ao homicida, e isto poderia ser feito a qualquer hora e em qualquer lugar, exceto na cidade de refúgio, onde o homicida que não matara intencionalmente poderia aguardar seu julgamento em segurança(Nm 35:11,12).

O refugiado não poderia sair da cidade. Se o fizesse, correria por sua conta o que acontecesse, pois o vingador o apanharia, e não haveria apelo para ele. As cidades de refúgio eram bem fortificadas e muradas, com portas nas extremidades, que podiam ser fechadas para impedir a chegada do vingador.

b) A cidade de refúgio: um tipo perfeito de Cristo. A cidade de refúgio protegia tanto aos filhos de Israel quanto ao estrangeiro (Nm 35:15), pois se levava em consideração o princípio da inocência e não da nacionalidade, e representava para o homicida perseguido e fugitivo, segurança e descanso ao mesmo tempo, tornando-se assim um tipo perfeito de Jesus Cristo, que recebe todos quantos tiverem acesso a Ele (João 6:37). Somente estando em Jesus Cristo, o refúgio de eterno, o pecador estará para sempre livre da sentença mortífera do pecado (João 5:24).

Ao determinar a construção das seis cidades de refugio, Deus Pai não estava querendo com isso proteger o assassino, mas dar um lugar de refugio àquele que cometia homicídio involuntário. Jesus é muito mais que aquelas cidades, é o refugio para os culpados.

c) Segurança na Cidade. Todo Hebreu sabia que, caso matasse alguém sem intenção de fazê-lo, o único lugar onde poderia estar seguro seria numa cidade de refugio. Entretanto, os levitas, que as administravam, só lhes davam abrigo uma vez satisfeitas algumas exigências que deveriam ser observadas antes, durante e após o asilo. Se algum homicida caísse nas mãos do vingador de sangue, não era por falta de um refugio, mas porque não tinha se utilizado dele.

No instante em que cruzava a soleira da porta, o homicida involuntário estava tão seguro quanto a provisão de Deus o podia tornar. Mas se o réu saísse da cidade, estaria assumindo a culpa e poderia ser morto pelos vingadores da vítima. Nem se quer podia visitar os seus amigos.

Os levitas faziam uma audição preliminar dos acusadores fora dos portões da cidade de refúgio, enquanto o réu era mantido nela até o julgamento. Caso o assassinato fosse julgado acidental, o réu permaneceria na cidade até a morte do sumo sacerdote, quando o réu seria liberto e poderia começar uma nova vida sem se preocupar com vingadores. Caso o crime não fosse acidental, o réu seria libertado, ficando à mercê dos vingadores da vítima. Esse sistema de justiça do Antigo Testamento demonstra como a lei de Deus e sua misericórdia sempre nos beneficiaram.

d) Condições para concessão do refúgio. Qualquer um podia pedir asilo na cidade de refugio, inclusive o estrangeiro (Nm 35:15). A concessão, todavia, estava condicionada a natureza do crime: se culposo, concedia-se o asilo, se doloso, executava-se o homicida. Era dever do homicida empregar toda a sua energia para alcançar os recintos sagrados, pois sabia que se o vingador do sangue conseguisse por mão nele, não haveria esperança. Só havia uma coisa a fazer e essa era escapar para não morrer, fugir do castigo eminente e encontrar um abrigo seguro dentro das portas da cidade do refugio. Uma vez ali, nenhum mal o podia alcançar. Jesus é o nosso refúgio. Estando sob a sua proteção nenhum mal nos poderá atingir.

e) A Duração do Refúgio. Pela lei, a duração do refúgio estava condicionada a morte do sumo sacerdote (Nm 35:25), quando e somente então o homicida poderia deixar o asilo sem perder a proteção legal. Se o vingador do sangue o ferisse depois da morte do sumo sacerdote, cometeria homicídio doloso e seria punido com a morte.

f) O Sacerdote e o culpado. Aquele que por acaso, matasse o seu semelhante involuntariamente, dependeria, para retornar a liberdade, da morte do sumo sacerdote. Jesus Cristo consumou esta obra suprema morrendo pelos pecados do mundo inteiro(Mt 1:12; Jo 1:29). Jesus sendo o Filho de Deus pode oferecer um sacrifício de valor eterno e infinito, conquistando nossa liberdade espiritual. Ele assumiu a natureza humana, identificando-se com o gênero humano e assim sofreu o castigo que era nosso, a fim de que pudéssemos escapar da situação de culpados. Ele, que era sem pecado por natureza, que nunca havia cometido um pecado sequer em sua vida, se fez pecado, tomando nosso lugar. "Aquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós" (2 Co 5:21). Nesta obra expiatória figuram a sua morte, ressurreição e ascensão. Como sacerdote vivo e ressurreto Ele nos garante proteção eterna. Ele não somente morreu por nós como também vive por nós(Rm 8:34; 4:25; 5:10).

2. O sistema judiciário da Lei(Josué 20:2-6; Nm 35:6-34). O Velho Testamento nos causa admiração por diversas razões, mas, particularmente, devido à existência de leis, costumes e circunstâncias culturais muito diferentes das que vivemos agora. Várias são as passagens que nos mostram claramente como funcionava o sistema judicial daqueles tempos, isto é: “olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé”. Podemos ver isto nos livros de Êxodo 21:24, Levítico 24:20 e Deuteronômio 19:21.

Havia leis para diversos tipos de crimes: os de natureza religiosa(Ex 20:3-5), material(Ex 22:1-15), moral(Ex 22:16-31; Lv 18:1-29) e pessoal (Ex 21:12-36). As cidades de refúgio, também, faziam parte do sistema judiciário do povo de Israel, determinado por Deus. O principal propósito das cidades de refúgio era prevenir a injustiça, especialmente em casos de vingança. Os levitas eram responsáveis por essas cidades. Eles deveriam assegurar que os princípios de justiça e benignidade de Deus fossem mantidos. É válido ressaltar, porém, que o assassino intencional não teria direito à proteção das cidades refúgio. Ele seria morto pelo seu crime.

O que essas cidades de refúgio, que fazia parte do sistema judiciário de Israel, nos traz de lição para todos nós? Nos tempos em que vivemos, um homicida não tem um lugar determinado para onde possa fugir e ficar legalmente protegido. Entretanto, todos nós somos originalmente culpados diante de Deus, ainda que não sejamos homicidas. "Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Rm.3:23). Nossa culpa nos induz à fuga. Nossa natureza nos diz: "Fuja!", mas para onde fugiremos? Muitos procuram argumentos racionais, filosóficos, etc. para justificarem seus erros e pecados. Este é o lugar de fuga que escolheram. Outros optam por negar o erro cometido. Existem ainda aqueles que culpam outra pessoa. Cada um foge em uma direção. Quando Caim matou seu irmão, sua ação seguinte foi fugir da presença do Senhor. E nós, para onde fugiremos? Como escaparemos do castigo pelas nossas faltas? A Bíblia diz: "Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará”(Sl.91:1). Ao contrário do que fez Caim, devemos correr em direção a Deus, e não correr de Deus. O salmista Davi escreveu: "O Senhor é o nosso refúgio e fortaleza" (Salmo 46:1). "Tu és o lugar em que me escondo; tu me preservas da angústia; tu me cinges de alegres cantos de livramento”(Salmo 32:7).

3. A profanação da terra prometida(Nm 35:33,34).”Não profanareis a terra da vossa habitação, porque o sangue profana a terra...”(v.33). A poluição da terra por meio de derramamento de sangue só podia ser removida através do derramamento do sangue do assassino. Deixar de executar um assassino significava poluir e profanar a terra(Num 35:33). “Profanar” significava que deixar de vingar a morte de uma pessoa inocente levaria Deus a retirar a sua presença, bênção e ajuda à terra(ver Dt 21:1-9). A santidade e a justiça de Deus exigiam que nenhum assassino ficasse solto. A pena de morte em Israel expressava o santo propósito de Deus para que a justiça e a preservação da vida inocente fossem mantidas entre o seu povo, como nação santa.

Veja o que está escrito em Gênesis 9:5,6: “Certamente requererei o vosso sangue, o sangue das vossas vidas; de todo animal o requererei; como também do homem, sim, da mão do irmão de cada um requererei a vida do homem. Quem derramar sangue de homem, pelo homem terá o seu sangue derramado; porque Deus fez o homem à sua imagem”. Observe o uso tríplice do mesmo verbo: ”requerereis... requerereis... requerereis”(v.5). Isto destaca o seguinte princípio: a vida humana criada à imagem de Deus é tão valiosa(v.6) que Deus exige como compensação nada menos do que a vida do assassino. Em última análise, o Senhor é o Vingador da vida (Salmo 9:12; 2Reis 9:26). O assassinato deixa no culpado a sua mancha(Nm 35:33; Salmo 108:38) e é expiado pela morte do assassino(Gn 9:6; 1Reis 2:31,32; Lv 17:11) ou pela expiação quando o assassino é desconhecido(Dt 21:7-9). Se estas medidas não fossem tomadas, o juízo do Senhor viria sobre a terra(2 Sm 21; Dt 19:13; 1 Reis 2:9,31-33).

Somente a morte expiatória de Jesus Cristo é capaz de eliminar a culpa do pecado e libertar o pecador da maldição e condenação da lei(Hb 9:11-14; Ef 2:13).

II – O SENTIDO FIGURADO DAS CIDADES DE REFÚGIO(Josué 20:7,8)

As cidades de refúgio, em número de seis, eram parte das 48 cidades destinadas por Deus aos levitas(Nm 35:6), e, portanto, administradas pelos levitas. As cidades de refúgio estavam situadas da seguinte forma: três cidades a leste e três a oeste do Jordão(Josué 20:7,8).  A leste do Jordão (Estas foram escolhidas por Moisés – Dt 4:41-43): Bezer (para a tribo de Rubens), Ramote(em Gileade) e Golã(para a meia tribo de Manasses). A oeste do Jordão (Estas foram escolhidas por Josué e Israel - Josué 20:7): Quedes (na montanha de Naftali), Siquém (na montanha de Efraim) e Hebrom (na montanha de Judá). Deus, em Sua misericórdia, não quis deixar o homicida sem um refúgio onde pudesse escapar do vingador do sangue; pelo contrário, segundo o Seu amor determinou que essas cidades fossem situadas de forma a que, sempre que houvesse necessidade de refúgio, pudesse estar à mão. Como se percebe, as cidades estavam geograficamente bem distribuídas; além disso, tomou-se o cuidado de se construir estradas bem pavimentadas, de forma a facilitar ao máximo o acesso.

As cidades de refúgio simbolizam a Pessoa de Jesus Cristo. Seus nomes são simbólicos para nós, como veremos a seguir:

1. Quedes: santificação para o impuro(Josué 20:7). Esta cidade ficava na região da Galiléia, território de Naftali (Norte de Israel). O termo “Quedes” significa “santo” ou “santuário”. Em “Quedes” contemplamos Jesus Cristo, o Ser Eterno Criador, que é refúgio para os impuros(Ap 3:7).

Jesus Cristo é santo e santificador dos que dEle se achegam – “Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção”(1 Co 1:30).

É a santidade de Jesus que nos assegura a salvação eterna – “Tendo, portanto, um grande sumo sacerdote, Jesus, Filho de Deus, que penetrou os céus, retenhamos firmemente a nossa confissão. Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado. Cheguemo-nos, pois, confiadamente ao trono da graça, para que recebamos misericórdia e achemos graça, a fim de sermos socorridos no momento oportuno”(Hb 4:14-16).

Jesus Cristo é a santidade requerida aos seus fiéis – “porquanto está escrito: Sereis santos, porque eu sou santo”(1 Pedro 1:16).

2. “Siquém”: lugar para o cansado(Josué 20:7). Esta cidade ficava na montanha, território de Efraim(centro-oeste, cerca de 70 km ao norte de Jerusalém). Esta cidade está plantada num vale fertilíssimo. É a primeira cidade mencionada no livro de Gênesis(Gn 12:6). Foi ali que sob um carvalho, Jacó enterrou os deuses estranhos que estavam com a sua família(Gn 35:1-4). O termo “Siquém” , no original, significa “ombro”.

Nesta cidade de refúgio encontramos tipologicamente Jesus Cristo: Tendo o principado sobre os seus ombros (Is 9:6). Em “Siquém” temos a vitória sobre todo principado e potestades das trevas. Assim como Siquém, Jesus Cristo é o refúgio para o cansado e oprimido(Mt 11:28). Ele é o Bom Pastor que carrega a ovelha ferida sobre os seus ombros(Lc 15:5).

3. “Hebrom:lugar de comunhão(Josué 20:7). Esta cidade ficava na montanha, território de Judá (Sul-sudeste, aproximadamente 36 Km ao Sul de Jerusalém). Era uma cidade de refugio importantíssima ao sul de Canaã.. A Bíblia faz 69 referencias a ela e significa "união", "companhia", "camaradagem", “comunhão”. Temos nesta cidade de refugio um tipo de Jesus Cristo como o nosso melhor amigo e companheiro (Lc 7:34; Jo 11:1; Jo 15:13,15; Sl 27:10).

4. “Bezer”: lugar de refúgio para o fraco(20:8). Esta cidade ficava no deserto, em terra plana, no território da tribo de Rubem(Dt 4:43; Js 10:8). De acordo com o original, “Bezer” significa “fortaleza”, e aparece apenas cinco vezes na Bíblia. Para quem vinha do Egito a Canaã, logo ao atravessar o território de Moabe, avistava Bezer à distancia, por causa de sua estratégia topográfica. Temos na cidade de Bezer a representatividade de Jesus Cristo como a fortaleza de todos os que nele confiam. Tal como a cidade era um refúgio para o homicida involuntário, Jesus Cristo é o nosso abrigo(Sl 91:9), fortaleza(Sl 91:2) e proteção(Sl 119:14). Só nEle temos segurança e força para enfrentarmos todas as adversidades da vida(Ef 6:13).

5. “Ramote”: lugar de refúgio para os humilhados(20:8). Esta cidade de refúgio ficava em Gileade, território de Gade(Dt 4:43). Era uma das cidades mais fortificadas do território gadita. O nome quer dizer "exaltação" ,"elevação". Assim como “Ramote”, Jesus Cristo é o nosso lugar de elevação. Ele está elevado à mão direita do Pai. São Paulo reconhece esta posição de Jesus e afirma: “Pelo que também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu o nome que é sobre todo nome”(Fp 2:9). O termo aplicado por Paulo "exaltou" no seu sentido mais amplo quer dizer "elevar às mais elevadas alturas", "exaltar excelsamente", "exaltar supremamente"; uma expressão enfática que indica a natureza elevadíssima e grandiosa da exaltação de nosso Senhor.

Jesus Cristo é a principal autoridade universal, superior a todos os nomes que possam ser mencionados agora e por toda a eternidade. Quando o pecador aproxima-se dEle, o nosso Ramote espiritual assume uma posição gloriosa – “estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele, e com ele nos fez sentar nas regiões celestes em Cristo Jesus”(Ef 2:5,6).

6. “Gola”: lugar de refúgio para os tristes(20:8). Esta cidade de refúgio ficava em Basã, território de Manasses. Era uma cidade situada numa belíssima planície. “Gola” significa "gozo ou exilo". Jesus, o nosso Golã espiritual, pagou o preço do desterro, ou seja, de rejeição, para tornar-nos cidadãos dos céus. Foi rejeitado: pelo mundo(Jo 1:10); por sua própria nação (Jo 1:21); pelo seu próprio país(Mc 6:4); por sua própria cidade(Lc 4:29);por seus próprios familiares (Jo 7:5); pelos escribas, sumo sacerdotes e anciãos (Lc 9:12) e pelos seus próprios seguidores (Mc 14:71). Ele dirá para aqueles que foram féis a Ele: “... Muito bem, servo bom e fiel...entra no gozo do teu senhor”(Mt 25:21).

CONCLUSÃO

A cidade de refúgio simboliza a autoridade da lei e a dignidade do homem. Ainda mais, simbolizavam Jesus Cristo que foi revelado no evangelho. Todos nós cometemos pecados (Rm 3:23), então devemos pagar o salário do pecado. Mas nós podemos nos refugiar em Jesus, pois nEle não há condenação(Rm 8:1). Em Jesus, temos paz, descanso, segurança, alegria e vitória nas lutas de cada dia. Ele é a nossa cidade de refúgio.

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Elaboração: Luciano de Paula Lourenço – Prof. EBD – Assembléia de Deus – Ministério Bela Vista. E-Mail: luloure@yahoo.com.br. Consta no site: www.adbelavista.com.br

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Fonte de Pesquisa: Bíblia de Estudo-Aplicação Pessoal. Bíblia de Estudo Pentecostal. Bíblia de Estudo Genebra. O novo dicionário da Bíblia. Revista o Ensinador Cristão. Guia do leitor da bíblia - Livro de Josué.   As cidades refúgio -  Prof. Anísio Renato de Andrade.