Aula 01

CORINTO – UMA IGREJA FERVOROSA, MAS NÃO ESPIRITUAL

Texto Base: 1 Corintios 3:1-9

05/04/2009

"E eu, irmãos não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo"(1 Corintios 3:1).

CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

Iniciamos o 2º trimestre de estudos bíblicos dominicais. Durante este período estudaremos a Primeira Epístola de Paulo à igreja de Corinto. Trata-se de treze aulas em que analisaremos as preciosas doutrinas e os problemas eclesiásticos enfrentados pela comunidade cristã da corrupta cidade de Corinto. Ao lermos esta preciosa e atemporal epístola vemos que os problemas que existiram ali se assemelham muito aos dos nossos dias, por isso o seu estudo chega no momento muito apropriado para que nos conscientizemos do real compromisso que todos nós devemos ter que é pugnar todos os ardis de satanás e os torpedos que tendem denegrir o padrão moral e espiritual da nossa comunidade cristã local.

Antes de comentar os tópicos propostos faremos algumas considerações preliminares:

1. A cidade de Corinto. Corinto, uma cidade antiga da Grécia, era, em muitos aspectos, a metrópole grega de maior destaque nos tempos de Paulo. Seu colossal centro cultural se destacava com uma grande diversidade de riqueza, religiões e padrões morais. Tinha uma reputação de ser extremamente independente e tão decadente quanto qualquer cidade no mundo. Os romanos destruíram Corinto em 146 a.C. depois de uma rebelião. Mas em 46 a.C o imperador romano Júlio César a reconstruiu por causa de seu ponto estratégico. Na época de Paulo (50 d.C), os romanos fizeram de Corinto a capital da Acácia(atual Grécia). Era uma cidade grande, que oferecia à Roma grande lucros provenientes do comércio, como também a proteção militar de seus portos. Mas a prosperidade da cidade tornou-a passível de todos os tipos de corrupção. A idolatria floresceu. Existia, ainda, mais de uma dúzia de templos pagãos empregando pelo menos mil prostitutas. Em função da reputação de Corinto, até as prostitutas de outras cidades passaram a ser chamadas de "meninas coríntias".

2. A fundação da Igreja. Paulo fundou a igreja de Corinto, juntamente com Áquila e Priscila(ou Prisca – Josué 16:19) e com sua equipe apostólica(At 18:5), quando da sua segunda viagem missionária, durante seu ministério de dezoito meses nessa região. A igreja era composta de judeus e gentios, mas o maior contingente de crentes era constituído de gentios convertidos do paganismo. Depois da partida de Paulo de Corinto, surgiram vários problemas da jovem igreja, que requereram sua autoridade e doutrina apostólica, por carta e visitas pessoais.

3. A primeira Epístola aos Coríntios. Cerca de três anos depois, quando ministrava em Éfeso, Paulo recebeu uma carta de Corinto. A congregação enfrentava sérias dificuldades e várias dúvidas práticas quanto à vida cristã. A primeira epístola aos Corintios foi escrita em resposta a essa carta. Pelo que se percebe no versículo onze do capitulo primeiro, Paulo havia sido informado das contendas em Corinto pelos da casa de Cloe(1:11). Ao citar o nome de seus informantes, Paulo define um importante princípio da conduta cristã: só devemos passar adiante notícias sobre nossos irmãos em Cristo se estivermos dispostos a ter nosso nome associado a tais informações. A aplicação desse princípio nos dias de hoje evitaria grande parte das fofocas que contamina a igreja.

Paulo escreveu e destinou esta carta aos crentes da igreja de Corinto, enquanto visitava Éfeso durante a sua terceira viagem missionária(At 19:1;20:1). Corinto e Éfeso ficavam uma em frente à outra, separadas pelo Mar Egeu. Paulo conhecia bem a igreja de Corinto porque havia passado dezoito meses naquela cidade durante sua segunda viagem missionária(At 18:1-18). Naquele mesmo tempo, uma delegação da igreja coríntia visitou Paulo a fim de pedir-lhe conselho para solução de conflitos(16:17). Paulo atendeu o pedido e escreveu esta inspirada carta para edificação da igreja ao longo do seu curso. O tema da epístola é como corrigir uma igreja mundana e carnal que não leva a sério as atitudes, os erros e os atos que o apóstolo Paulo considerava alarmantes.

4. A contribuição distinta de 1 Coríntios. O capítulo 15 desta epístola contém a mais nítida exposição da ressurreição de Cristo e dos crentes. Com isso, é cristalina a promessa da Bíblia da ressurreição literalmente física de todos os cristãos.

Não obstante, a maior contribuição desse livro é de caráter interpessoal. Paulo nos conta que a congregação de Corinto, usufruía todos os dons espirituais. Ainda assim, essa é a única igreja que o apóstolo chama de "carnal, como crianças em Cristo"(3:1). O estudo que faremos, durante este trimestre, desta extraordinária carta do Novo Testamento nos ajudará a ver a maneira pela qual simples seres humanos se aproximam de problemas que causam divisão para, então, nos demonstrar a maneira pela qual adotar a perspectiva de Deus pode restaurar a harmonia e a unidade em uma igreja local.

INTRODUÇÃO

A igreja de Corinto era uma igreja que havia sido muito abençoada por Deus em diversos aspectos. Quando Paulo inicia esta carta ele reconhece, no capítulo primeiro, que Deus havia abençoado a igreja com toda sorte de bênçãos espirituais, de dons espirituais, ao ponto de "não lhes faltar dom nenhum". Corinto era uma igreja carismática no sentido bíblico da palavra, ou seja, tinha os "carismas" do Espírito de Deus, os dons, através dos quais desenvolvia seu serviço prestando culto a Deus e cumprindo a sua missão neste mundo. Mas satanás sempre trabalha para que o povo de Deus não triunfe em união, na unidade de seus membros, na pregação do evangelho, na oração, na vigilância, no exercício da pregação do evangelho, em fim, ele sempre artimanha para que a igreja perca o caráter de Cristo e se desvie dos padrões de conduta condizente com a lei moral e espiritual de Deus. Foi o que aconteceu com a igreja de Corinto, que com menos de três anos de fundada começou a desviar-se dos padrões de conduta e de doutrina que o apóstolo havia estabelecido por ocasião de sua fundação. Alguém, de forma sucinta, descreveu a situação daquela igreja da seguinte maneira: "A igreja estava no mundo, como deveria estar, mas o mundo estava na igreja, como não deveria estar". Uma vez que se trata de uma situação comum em muitas igrejas de hoje, esta primeira epístola à igreja de Corinto não perdeu sua relevância.

I – O CONTEXTO DA ÉPOCA

Na época de Paulo, a cidade de Corinto ocupava posição estratégica junto às rotas comerciais da região. Não é de admirar, portanto, que se tenha tornado um grande centro de comércio internacional e um local de tráfego intenso. Graças à religião depravada de seus habitantes, não demorou a se transformar em centro de imoralidade e sinônimo de toda espécie de impureza e sensualidade. A reputação da cidade era tão abjeta que seu nome deu origem ao verbo korinthiazomai, que significava levar uma vida devassa.

O apóstolo Paulo visitou Corinto pela primeira vez em sua segunda viagem missionária(At 18). A princípio, trabalhou entre os judeus junto com Priscila e Áquila, que também confeccionavam tendas. Quando a maioria dos judeus rejeitou sua mensagem, Paulo se dirigiu aos gentios. A pregação do evangelho salvou almas e resultou na formação de uma igreja na cidade. É animador saber que nenhum lugar da terra é tão imoral a ponto de ser impossível fundar ali uma congregação pertencente a Deus.

1. Propósito da epístola. O propósito principal é identificar problemas na igreja de Corinto, oferecer soluções e ensinar aos crentes como viver para Cristo em uma sociedade corrupta. Paulo ouviu falar das lutas de Corinto e escreveu esta carta para tratar dos problemas daquela igreja, sanar divisões e responder às perguntas dos crentes coríntios. Após uma breve introdução(1:1-9), Paulo se dirige imediatamente aos principais problemas:

a) Problemas de Unidade(cap 1:10 – 4:21). Paulo soube que havia divisões na igreja, que estava dividida em 4 grupos. Grupos que se formaram em torno de personalidades, de pessoas que tinham tido uma participação no passado recente da igreja, com o próprio Paulo e Apolo (cap. 3:4). Havia até um grupo que talvez fosse o mais perigoso deles que era o "grupo de Cristo" (‘... e eu, de Cristo" - 1:12). Eles diziam que não eram seguidores de homem algum e sim de Cristo. Era como se dissessem: não queremos estar debaixo da orientação ou da instrução e autoridade de qualquer homem porque recebemos tudo diretamente de Cristo. Alguns estudiosos têm identificado este grupo como o "grupinho dos espirituais" que falavam em línguas e se gloriavam por terem experiências extraordinárias; que não aceitavam a autoridade de Paulo na igreja e outras coisas mais.

b) Problemas morais e disciplinares(cap 5:1 – 6:20). Problema moral: uma relação incestuosa de um homem que vivia com sua madrasta e que era do conhecimento de todos, como se vê nas palavras de Paulo: "Geralmente se ouve que há entre vós imoralidade..." (5:1). O mais grave é que isto era do conhecimento não só da igreja, mas também da própria sociedade de Corinto. Era algo notório e se comentava; circulava rumores verdadeiros com respeito a este incidente. Nos traz constrangimento o fato de que a igreja de Corinto, como um todo, parecia não ver nada de grave nisso: "Afinal Deus não está em nosso meio? Vejam o que acontece nos nossos cultos"! E este homem continuava a viver com sua madrasta às vistas de toda a igreja! Mas o que mais incomodava o apóstolo Paulo era a falta de uma atitude firme por parte da igreja com relação àquela pessoa. Ou seja, a igreja deveria constatar que conduta moral e espiritualidade são duas coisas que andam juntas. Temos de ter as duas coisas; e quando temos uma e não a outra, ou a espiritualidade é falsa ou a moralidade é falsa. Mas a genuína espiritualidade exige uma conduta de acordo com as verdades do evangelho.

Outro problema: litígio. Havia um irmão que estava processando outro num tribunal secular (6.4). Talvez a igreja não tenha se interessado o suficiente. A verdade é que não chegaram a um acordo e talvez por questão de terra ou talvez de dinheiro e negócios, este irmão estava em litígio com outro. Por isso estava processando-o no tribunal da cidade. Com esta atitude estava expondo o Evangelho à vergonha diante dos ímpios (6: 6).

Outro problema moral: prostituição religiosa. Havia um grupo que estava voltando à prática da prostituição religiosa (6:18-19), o que era comum na cidade de Corinto. Isso era praticado nos templos onde se cultuava a deusa Afrodite.

c) Problemas com casamento e divórcio (cap. 7). Devido ao fato de a prostituição e a imoralidade serem comuns, os casamentos em Corinto estavam sendo destruídos, e os cristãos não estavam certos de como deveriam reagir. Paulo deu respostas diretas e práticas. Havia problemas com respeito às questões do casamento (cap. 7): O que é mais espiritual: casar ou ficar solteiro?

d) Problemas de ordem doutrinária(cap. 8:1 – 11:1). Existiam problemas com respeito à doutrina da liberdade cristã (10:28) - "Será que posso comer carne sacrificada aos ídolos"? Os "fortes" diziam que sim e subestimavam os "fracos". Paulo sugeriu que demonstrassem um comprometimento completo com Cristo e sensibilidade para com os outros crentes, especialmente os irmãos mais fracos.

e) Problemas na atividade litúrgica(cap 11:2-34). Paulo falou sobre a adoração, explicou cuidadosamente o papel das mulheres e a Ceia do Senhor. As mulheres entusiasmadas estavam querendo tirar qualquer sinal de que há uma diferença entre homem e mulher dentro da ordem da criação de Deus (11:8-9). Na hora da Santa Ceia havia pessoas que até se embriagavam (11:21) e participavam do sacramento sem ter o espírito apropriado.

f) Problemas com o Dom de Língua( cap 12:1 – 14:40). Os crentes "espirituais" falavam línguas sem interpretação para a igreja e desta forma não edificavam (14:5). Os profetas falavam, mas não havia ordem de quem deveria falar primeiro (14:29, 32). Era uma desordem.

O ensino desses capítulos é o mais rico do Novo Testamento sobre a natureza e o conteúdo da adoração na igreja primitiva(14:26-33). Paulo mostra que o propósito de Deus para a igreja inclui uma rica variedade de dons do Espírito através de crentes fiéis(12:4-10) e de pessoas chamadas para exercerem certos ministérios(12:28-30) – uma diversidade dentro da unidade, comparável às múltiplas funções do corpo humano(12:12-27). No da operação dos dons espirituais na congregação, Paulo faz uma distinção essencial entre a edificação individual e a coletiva como assembléia(14:2-6,12,16-19,26), e reitera que todas as manifestações públicas dos dons devem brotar do amor(cap 13) e existirem para a edificação de todos os crentes(12:7,14:4-6,26).

g) Dúvidas sobre a Ressurreição(cap 15:1 –58). Um grupo não aceitava a ressurreição dos mortos (cap. 15). Neste capítulo é destacada a mais nítida exposição da ressurreição de Cristo e dos crentes.

2. Ser cristão em meio a um povo ímpio. Ser cristão em meio a um povo ímpio é um grande desafio. É necessário que haja um tremendo compromisso de servir e seguir a Deus. É necessária convicção de fé e grande esforço para não se contaminar com as "iguarias" que o mundo oferece, as quais são apetitosas quando se deixa ser atraídos por elas.

Vimos no trimestre passado, quando estudamos o livro de Josué, nas lições 12 e 13, a grande preocupação que Josué teve como o povo de Israel. Ele sabia que a convivência com os cananeus levaria aquela nação à decadência espiritual e moral caso não tivesse um compromisso série e inabalável em servir somente ao Senhor Deus. Por isso, ele foi tão exaustivo e enfático: "Esforçai-vos, pois, para guardar e cumprir tudo quanto está escrito no livro da lei de Moisés..."(Josué 23:6). Qualquer afastamento dos caminhos de Deus era o mesmo que andar para trás, e esse afastamento começava com o misturar-se com as nações em torno de Israel. Caso isso acontecesse, Deus deixaria de conceder ao seu povo as vitórias que lhes fizeram famosos desde a saída do Egito, e perderiam a boa terra que receberam do Senhor. De igual modo nós, o nosso modo de viver deve estar coadunado com a vontade de Deus explícita em sua Palavra, e isto envolve atitudes, ações, obras, e comportamento em geral(vide Fp 1:27; 1 João 2:4-6).

Os cristãos de Corinto lutavam contra o meio em que viviam. Cercados pela corrupção e por todos os pecados concebíveis sentiam a pressão para se adaptar. Sabiam que eram livres em Cristo. Mas o que essa liberdade significava? Como deveria ver os ídolos ou a sexualidade? O que deveriam fazer a respeito do casamento, das mulheres na igreja e dos dons do Espírito? Essas eram mais do que apenas perguntas teóricas – a igreja estava sendo minada pela imoralidade e pela imaturidade espiritual. A fé dos crentes estava sendo provada no crisol da imoral cidade de Corinto, e alguns deles estavam falhando na prova.

Prouvera a Deus os crentes em Cristo tivessem a mesma capacidade de alguns animais, como, por exemplo, o camaleão, de se camuflar e se adaptar ao ambiente. Muitos animais usam a capacidade de camuflagem que lhes foi dada por Deus para sobreviver. Mas os seguidores de Cristo são novas criaturas, nascidas de Deus e interiormente transformados, com valores e estilos de vida que confrontam o mundo e colidem com a moral normalmente aceita pelos não-crentes. Os verdadeiros cristãos não se misturam.

II – O FERVOR RELIGIOSO E A ESPIRITUALIDADE

1. Fervor e espiritualidade. Os membros da igreja do Corinto tinham todos os dons espirituais de que precisavam para viver a vida cristã, testemunhar a favor de Cristo e posicionar-se contra o paganismo e a imoralidade de Corinto. Mas, em vez de usar o que Deus lhes deu, estavam discutindo a respeito de quais dons eram mais importantes. O simples fato de seus membros possuírem esses dons não era, de per si, sinal de espiritualidade autêntica. Parece que hoje estamos vivendo a síndrome daquela época: muito barulho e pouco fervor espiritual.

Em muitas igrejas vemos movimentos e agitação sem, contudo, haver espiritualidade. Hoje está muito em voga o "falar em línguas". Tem pregadores que, no momento da pregação, insistem que todas pessoas presentes na igreja falem línguas, independentemente de serem ou não batizados com o Espírito Santo, pré-requisito para o dom de línguas. E em obediência ao tal pregador o auditório se agita e se envolve num tremendo barulho, sem nenhuma espiritualidade. Ora, se o objetivo do dom de línguas é a edificação individual do falante, então as línguas não devem ser faladas para que todos ouçam, mas devem fazer parte da devoção individual da pessoa.

Muitos têm confundido barulho com fervor espiritual, esquecendo-se que, nas Escrituras, o barulho que chama a atenção da multidão é o da língua estranha enquanto sinal do batismo com o Espírito Santo(I Co.14:22), não enquanto dom espiritual. A inobservância desta regra bíblica somente trará escândalo e prejuízo à causa do Evangelho (I Co.14:23). Será que as pessoas que têm causado barulho intenso nas reuniões da igreja local, que perturbam a reunião, que impedem que as pessoas ouçam a mensagem, em especial as que não são crentes, costumam passar horas em oração, nas madrugadas, falando em línguas com o Senhor? Será que são pessoas que têm efetiva intimidade com Deus ou querem apenas aparecer, nas reuniões, chamando para si uma atenção que deveria estar voltada apenas para o Senhor? Será que têm sido demonstrações do poder de Deus ou instrumentos do adversário para atrapalhar a operação divina em nossas reuniões?

A maioria das vezes o que parece fervor espiritual é apenas sensacionalismo, resultante de motivações e mecanismos externos, que é efêmero. O genuíno fervor espiritual está intimamente vinculado com a maturidade cristã, que não é medida pela quantidade de dons que uma igreja exercita, mas pelo exercício da piedade e da vida cristã consagrada(Ef 4:17-32). O cristão não deve fazer sensacionalismo com o(s) dom(ns) que recebeu, mas usá-los humildemente no serviço do Senhor. Os dons não são presentes.

2. Dons espirituais sem o fruto do Espírito(Gl 5:22; Ef 5:9). Os cultos da igreja de Corinto eram notadamente pentecostais (1 Co 12; 13; 14). Segundo o apóstolo Paulo, nenhum dom faltava a essa igreja (1 Co 1.7). Todas as manifestações espirituais do Espírito Santo tinham lugar ali (1 Co 12.4). Havia diversidades de ministérios do Senhor Jesus (1 Co 12.5), e diversas operações do próprio Deus (1 Co 12.6). No entanto, a desordem no culto de adoração a Deus (1 Co 11.17-19) era notória. Os dons eram exercidos para demonstrar status de maturidade e espiritualidade, mas o resultado disso era o oposto: imaturidade e atitudes carnais(1 Co 3:1-4). A desordem era tal que o próprio culto tornou-se um entrave para o progresso espiritual dos crentes.

É o caráter do cristão, que chamamos de Fruto do Espírito, que identifica o genuíno cristão. O Fruto do Espírito é gerado pela ação do Espírito Santo, e se desenvolve dentro do "homem interior"; ele passa a fazer parte da personalidade do novo homem. Sendo gerado dentro do homem, o Fruto testifica das qualidades do homem, conforme ensinou o Senhor Jesus: "Ou fazei a árvore boa, e o fruto bom, ou fazei a árvore má, e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore"(Mt 12:33). Sendo assim, então o Fruto do Espírito testifica das qualidades do homem, ou seja, como ele na verdade o é. Já os dons espirituais vêm de fora, dado pelo Espírito Santo, que sendo Deus, no uso de sua soberania, dá a quem Ele quer, e quando Ele quer – "Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas repartindo particularmente a cada um como quer"(1Co 12:11). Sendo uma dádiva do Espírito, o Dom testifica das qualidades, ou virtudes do doador. E a glória deve ser dEle e não do simples possuidor, como afirmou Paulo: "Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não do homem"(2Co 4:7). O Doador, segundo a Bíblia, é o Espírito Santo – "Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil"(1Co 12:7).

Há crente que por ter um Dom Espiritual, quase sempre o de Profecia, julga-se no direito de ser ouvido e até de dirigir a Igreja, passando por cima do Pastor. Igreja não se dirige com os Dons Espirituais. Igreja tem que ser dirigida com a Palavra de Deus. Por isto é preciso conhecê-la. Paulo pensava assim, pois, disse que o neófito, ou novo convertido, não deveria ser separado para o Ministério – "Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo"(1Tm 3:6). É sabido que o novo convertido, ou neófito, pode receber os Dons Espirituais, mesmo antes do Batismo nas Águas. Isto, contudo, não o credencia para o Ministério. Para o Ministério é necessário amadurecimento espiritual; isto só se consegue através da formação do Fruto do Espírito na vida do homem.

3. O culto e a utilização dos dons na igreja. O culto é uma das mais belas e antigas formas do homem expressar sua devoção, gratidão e adoração a Deus. Na Bíblia encontramos a principal fundamentação para a prática do culto cristão. A falta de conhecimento desta fundamentação, aliada ao descaso ou desinteresse quanto ao desenvolvimento histórico do culto, tem conduzido cristãos e igrejas, a se privarem de todas as bênçãos e privilégios deste tão solene ato, como também, ao desvio da simplicidade, verdade e espiritualidade, que sempre marcaram esta prática cristã. Em muitos lugares, como acontecia na igreja de Corinto, a formalidade, desordem e irreverência, tem transformado o culto num mero encontro de pessoas, quando deveria antes, ser um encontro de pessoas com Deus.

A utilização dos dons na igreja. Os Dons de Deus não são dados como presentes, mas, como instrumentos de trabalho para serem usados na Obra de Deus. Eles são dados "...conforme a medida da fé que Deus repartiu à cada um", e, no caso dos Dons Espirituais, eles são distribuídos pelo Espírito Santo "...a cada um para o que for útil"(I Co 12:7). Portanto, cada um recebe segundo a sua capacidade e habilidade no seu uso. O Senhor Deus conhece essa capacidade e habilidade de cada um.

Um estetoscópio é um instrumento de trabalho de grande utilidade nas mãos de um médico. Porém, não terá nenhuma serventia nas mãos de um pedreiro. Da mesma forma um prumo é um instrumento de trabalho de grande utilidade nas mãos de um pedreiro, porém, de nada servirá nas mãos de um médico.

O Espírito Santo dá o instrumento à pessoa certa. Àquela que tem condições de usá-lo. Assim, se você recebeu um Dom é porque você pode e deve usá-lo em beneficio da obra de Deus, nunca em beneficio pessoal, porque você é um servo.

Assim, meu irmão, se você recebeu um, ou mais Dons, eles não lhes foram dados para você exibir sua espiritualidade, mas, para você mostrar serviços na obra de Deus.

III – A MISSÃO DISCIPULADORA DA IGREJA

Além de proclamar a Palavra de Deus, a igreja tem a missão de fazer discípulos, ou seja, discipular, cuidado este que era patente nos tempos apostólicos, a ponto de os apóstolos terem chamado para si esta tarefa, considerando, inclusive, não ser razoável deixar de se dedicar à oração e ao ensino da Palavra (At.6:2,4), sem falar no zelo de Barnabé com relação à primeira igreja gentílica, a de Antioquia (At.11:25,26) e dos conselhos que Paulo dá a Timóteo no sentido de jamais se descuidar com o ensino junto aos crentes (I Tm.4:12-16).

1. Quantidade e qualidade na igreja. O crescimento quantitativo da igreja vem pelo novo nascimento(At 2:41-47), mas o qualitativo se dá pelo processo do ensinamento sistemático da Palavra de Deus. Quando alguém se converte a Cristo e nasce de novo, é um recém-nascido, é uma pessoa que não tem conhecimento algum a respeito das coisas de Deus, a respeito da vida com o Senhor Jesus. Embora tenha recebido uma nova natureza, embora seu espírito tenha se ligado novamente a Deus, ante a remoção dos pecados, é um ser humano e, como tal, precisa ser ensinado a respeito do Senhor, ensino este que deve ser proporcionado pela Igreja, que é a quem o Senhor cometeu esta tarefa sobre a face da Terra. Jesus é quem salva, mas é a Igreja quem deve "fazer discípulos", quem deve "ensinar".

Corinto estava com problemas espirituais exatamente por falta de uma presença mais constante do ensino da Palavra de Deus. O apóstolo Paulo, por causa de perseguição exacerbada por parte dos judeus, não pôde discipular aquela igreja como fez com a igreja localizada em Éfeso.

Discipular é ensinar a Palavra, é aperfeiçoar os santos. Assim, somente pode ser considerada encerrada quando alguém tiver atingido a perfeição, pois só alguém perfeito não necessita ser aperfeiçoado. Tanto assim é que o apóstolo Paulo afirma que os dons ministeriais devem ser exercidos até que cheguemos à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo (Ef.4:13). Quem, porventura, chegou a este estágio durante os quase dois mil anos de Igreja? Alguém já chegou à estatura completa de Cristo? Alguém já atingiu a perfeição? Evidentemente que não! Se formos para a história dos grandes homens de Deus, sem dúvida que diríamos que, nos tempos apostólicos, o apóstolo Paulo se encontrava entre aqueles que poderiam ter chegado a este nível. No entanto, o próprio Paulo afirmou que não havia chegado a tal condição (Fp.3:12), sendo, neste passo, seguido por Pedro (II Pe.3:15,16) e João (Jo.20:30,31; 21:24,25). Se estes homens, que conviveram ou tiveram uma revelação especial de Jesus, não chegaram a esta estatura, quem somos nós para dizer que o fizemos? Por isso, indubitavelmente, o discipulado é uma tarefa que nunca há de terminar na Igreja, visto que seu alvo é inatingível. Podemos, mesmo, afirmar que, ao dizer que o objetivo do discipulado é nos levar à estatura completa de Cristo, estamos aqui diante de uma expressão bíblica cujo significado é um só: "devemos aprender sempre".

2. Falsos crentes na igreja – "Acordai para a justiça e não pequeis mais; porque alguns ainda não têm conhecimento de Deus; digo-o para vergonha vossa"(15:34). Além dos problemas de dissensão, doutrinários, morais e disciplinares, ainda havia naquela comunidade cristã crentes que não tinham nascido de novo, ou seja, eram crentes falsos. É claro que isso não foi exclusividade da igreja de Corinto. Isso aconteceu ao longo dos tempos no seio das igrejas locais e não é novidade em nossos dias, pois as nossas igrejas estão repletas de crentes falsos ou, usando um termo mais atual e usual, evangélicos nominais. Estão na igreja apenas por um hábito e não por convicção da sua fé em Cristo Jesus. Talvez ir à igreja seja uma tradição familiar. Talvez gostem dos contatos sociais e de negócios que fazem lá. Ou possivelmente a ida à igreja seja um hábito presente há muito tempo, e nunca pararam para se perguntar por que o fazem.

Qual é a razão principal para ser cristão? A menos que seja uma razão centrada em Cristo, você pode não pertencer realmente a Ele. Está vivo é uma grande oportunidade que Deus dá ao evangélico nominal para que se converta de verdade ao Senhor. Os cristãos sabem que existe vida além-túmulo e que nossa vida na terra é apenas uma preparação para a vida eterna. O que você faz hoje é importante para a eternidade. Levando-se em conta a eternidade, permanecer no pecado é uma atitude tola. Você precisa se familiarizar com Jesus Cristo, e assim tornar-se um seguidor leal e confiável.

3. Ostentação – uma fraqueza entre os corintios. "Ora, irmãos, estas coisas eu as apliquei figuradamente a mim e a Apolo, por amor de vós; para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito, de modo que nenhum de vós se ensoberbeça a favor de um contra outro"(4:6). Os crentes de Corinto se dividiam em vários grupos, cada um seguindo seu pregador favorito(Paulo, Apolo, Pedro, e outros). Cada grupo realmente acreditava que seu líder favorito era o único a ter a verdade completa. Deste modo, eles se sentiam espiritualmente orgulhosos. Mas Paulo lhes advertiu que não ostentassem sua afeição por um pregador em particular.Isso porque cada pregador era simplesmente um humilde servo que já havia sofrido por proclamar a mesma mensagem da salvação em Jesus Cristo. Nenhum pregador da mensagem de Deus tem uma posição superior a outro.

Muitos vezes somos levados a nos afeiçoar por algum líder espiritual. Mas Paulo nos adverte contra atitude de nos orgulharmos de nossos lideres favoritos. Isso pode levar-nos a causar divisões na Igreja. Qualquer líder espiritual verdadeiro é um representante de Cristo, e nada tem a oferecer que Deus não lhe tenha dado. Portanto, não deixe que sua lealdade cause dissensão, calúnia ou o rompimento de relacionamentos. A lealdade mais profunda deve ser dedicada a Cristo.

No versículo 15 do capítulo 4, Paulo, em uma tentativa de unificar a Igreja, apelou para seu relacionamento com os crentes da igreja de Corinto. Por pai espiritual, ele queria dizer que era o fundador daquela igreja. Por ter fundado a igreja, podia-se confiar que ele tinha o melhor interesse em seu coração. Na igreja do Senhor, é necessário pregadores, mestres, guias, mas a partir de pais espirituais, que pelo Espírito Santo gerem filhos na fé para Deus.

4. Coisas boas na igreja de Corinto. Paulo ao deixar claro as falhas da igreja, também declara suas potencialidades. Uma comunidade não é de todo ruim, pois geralmente há nela pontos positivos a serem ressaltados, alguma fonte de encorajamento e esperança. Depois de concluir a saudação, o apóstolo expressa gratidão pelos coríntios e pela obra maravilhosa de Deus na vida deles(1:4-9). Eis alguns fatos bons relatados pelo apóstolo Paulo:

a) Em Corinto havia crentes santificados: "à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para serem santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo"(1:2). Aqui, os cristãos de Corinto são descritos como santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos. Neste caso, santificados significa separados do mundo para Deus e descreve a posição de todos os que pertencem a Cristo. Quanto à sua condição prática, eles devem separar-se dia após dia levando uma vida de santidade.

Este versículo refuta a idéia de que santificação é uma obra característica da graça por meio da qual a pessoa obtém a erradicação da natureza pecaminosa. Os cristãos de Corinto estavam muito aquém do ideal de santidade prática; ainda assim, eram posicionalmente santificados por Deus. E isto se estende a todos os membros da comunidade mundial que reconhece o senhorio de Cristo.

b) O apóstolo expressa gratidão pelos cristãos coríntios – "Sempre dou graças a Deus por vós, pela graça de Deus que vos foi dada em Cristo Jesus"(1:4). Os crentes corintios não eram o que chamaríamos de cristãos espirituais. Ainda assim, Paulo pode agradecer pela graça que lhes foi dada em Cristo Jesus.

c) Foram enriquecidos com dons espirituais – "porque em tudo fostes enriquecidos nele, em toda palavra e em todo o conhecimento"(1:5). Esta é uma possível indicação de que aqueles cristãos receberam em grau incomum os dons de línguas, interpretação de línguas e conhecimento. A "palavra" diz respeito à expressão exterior; enquanto "o conhecimento" se refere à compreensão interior.

d) o testemunho de Cristo foi confirmado neles – "assim como o testemunho de Cristo foi confirmado entre vós"(1:6). O fato dos cristãos coríntios terem os dons de línguas, de interpretação de línguas e conhecimento, confirma a obra de Deus na vida deles. Esse versículo mostra que Deus testificou que eles eram verdadeiramente salvos ao lhes conceder poderes miraculosos.

CONCLUSÃO

Nesta primeira epístola aos Corintos é nos alertado para sermos cuidadosos, não nos misturarmos com o mundo e nem aceitarmos seus valores e estilos de vida. Devemos viver centrados em Cristo, inculpáveis, vivendo no amor que faz diferença para Deus. Ao ler esta epístola, devemos examinar seus valores, levando em conta um completo comprometimento com Cristo.

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Elaboração: Luciano de Paula Lourenço – Prof. EBD – Assembléia de Deus – Ministério Bela Vista. E-Mail: luloure@yahoo.com.br. Disponível no site: www.adbelavista.com.br

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Fonte de Pesquisa: Bíblia de Estudo-Aplicação Pessoal. Bíblia de Estudo Pentecostal. Bíblia de Estudo Genebra. O novo dicionário da Bíblia. Revista o Ensinador Cristão. Guia do leitor da bíblia - Livro de Josué. Comentário Bíblico Popular – William Macdonaldo. Corinto, uma igreja com problema de disciplina - Rev. Augustus Nicodemus Lopes.