Aula 02

O DEUS QUE SE COMUNICA COM O HOMEM

Leitura Bíblica: Salmos 29:1-10

Data: 12/10/2008

 

“Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho”((Hb 1:1).

 

PARTE I – SUBSIDIO TEOLÓGICO

 

INTRODUÇÃO

A comunicação é de extrema importância em quaisquer relacionamentos, e isto não é diferente em relação a Deus e à humanidade. Desde a formação do homem Deus sempre quis e quer se comunicar com ele. Antes da queda, Deus se comunicava com o homem pessoalmente e verbalmente. É o que se percebe através da seguinte passagem bíblica: “E, ouvindo a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim à tardinha, esconderam-se o homem e sua mulher da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim.  Mas chamou o Senhor Deus ao homem, e perguntou-lhe: Onde estás?  Respondeu-lhe o homem: Ouvi a tua voz no jardim e tive medo, porque estava nu; e escondi-me”(Gn 3:8-10). Após a queda, embora à distância, Deus sempre quis falar com o homem, transmitindo sua vontade divina e soberana.

O fato de Deus se comunicar com o homem é uma demonstração da diferença vital entre Ele e os falsos deuses, que são simplesmente fruto da imaginação humana, e isto o salmista demonstra quando diz: “Os ídolos deles são prata e ouro, obra das mãos do homem.  Têm boca, mas não falam; têm olhos, mas não vêem; têm ouvidos, mas não ouvem; têm nariz, mas não cheiram;  têm mãos, mas não apalpam; têm pés, mas não andam; nem som algum sai da sua garganta”( Sl 115:4-7). Infelizmente, o pecado trouxe um prejuízo devastador na vida humana afastando-o de Deus, principalmente a morte física e espiritual(Rm 3:23). A comunicação verbal e pessoal que era perfeita e prazerosa passou a ser impessoal, restrita e quase impossível. Mas Deus não iria deixar a obra prima de sua criação, o homem e a mulher, à mercê de Satanás. Criou imediatamente um plano de reconciliação e a volta à comunicação com Ele. Em Gn 3:15 vemos Deus providenciar esse plano: encarnando o seu Filho (João 1:14), tornando-o semelhante a nós(Fp 2:7) e morrendo em nosso lugar, rasgando assim o véu que separava o ser humano de Deus e rasgando a cédula de dívida que era contra nós em suas ordenanças e cravando-a na cruz(Cl 2:14), reconciliando-nos com Ele(Rm 5:11; 2Co 5:18,19). Agora, em nome de Jesus Cristo, através da oração e de sua Palavra, a Bíblia Sagrada, podemos nos comunicar com Deus.

I – A COMUNICAÇÃO DIVINA

1. Deus sempre teve interesse em se comunicar com o ser humano. Deus tem todo interesse de se comunicar com o homem, e isto se comprova pelas inúmeras histórias narradas na Bíblia. A Bíblia nos dar indicações de que Deus nunca teve por propósito deixar o homem sem quaisquer orientações em relação à sua pessoa, seus atributos ou seu papel na historia do mundo. Em sua Palavra, Ele mostra de forma clara qual é a sua vontade, como devemos agir e como nos aproximarmos dEle. O objetivo desta interação é dar a humanidade a chance de ter a vida eterna com Ele. Deus criou as dispensações, que é a forma de se comunicar com o homem mediante forma especifica, a fim de trazer de volta a comunhão dantes quebrada pelo pecado. Em todas as dispensações, Deus sempre teve pleno interesse em manter contato com o ser humano, seja qual for o método empregado.

Só para lembrar, denominamos dispensação a um período da história da humanidade em que Deus se relacionou com o homem de um determinado modo. Os teólogos costumam identificar sete dispensações, a saber: inocência (da criação até a queda do primeiro casal), consciência (da queda do primeiro casal até o dilúvio), governo humano (do dilúvio até a torre de Babel), patriarcal (da chamada de Abrão até a entrega da lei no Sinai), da lei (da entrega da lei no Sinai até a morte e ressurreição de Jesus), da graça (da morte e ressurreição de Jesus até o arrebatamento da Igreja) e o milênio (o reino milenial de Cristo, que se dará após a guerra do Armagedom até a destruição final dos rebeldes e o juízo do trono branco, quando se encerra a história, iniciando-se o Estado Eterno, com novo céu e nova terra).

Deus sempre quis e quer se comunicar com o homem, mas a persistência no pecado tem levado o ser humano a sofrer diversas conseqüências e pesados juízos divinos. Deus não se deixa escarnecer e tudo o que o homem semear, isto também ceifará (Gl.6:7). Desde o instante do pecado do homem, o Senhor tem lançado juízos sobre a humanidade, a começar pelo próprio juízo dado ao primeiro casal por causa do pecado. A história tem mostrado diversos juízos divinos desde então, juízos estes que correspondem ao término de um período de tratamento do homem por Deus (as chamadas “dispensações”). Assim, após o juízo que resultou na expulsão do jardim do Éden e na morte física, que pôs fim a dispensação da inocência, seguiram-se os seguintes juízos:

a) dilúvio – Deus destruiu, pelo dilúvio, toda a humanidade, com exceção de Noé e sua família, pondo fim a dispensação da consciência.

b) confusão das línguas – Em Babel, Deus confundiu a língua e determinou, com isso, a destruição da comunidade única pós-diluviana, pondo fim a dispensação do governo humano.

c) pragas do Egito – Com as dez pragas sobre o Egito, Deus pôs fim a dispensação patriarcal e formou o seu povo, Israel, dotado de uma lei.

d)  Calvário – Com a morte de Cristo cumpre-se a lei e se satisfaz a justiça divina e termina a dispensação da lei, abrindo-se a oportunidade para a salvação de toda a humanidade na pessoa bendita de Jesus. Começa aí a dispensação da Graça.

Além destes juízos globais, o Senhor também executou justiça em relação a povos localizados ou mesmo a pessoas, como são exemplos os episódios de Sodoma e Gomorra, dos habitantes primitivos da terra de Canaã, das dez tribos do Norte e assim por diante.

O fato é que, embora estejamos na dispensação da graça, também chegará o instante em que o Senhor providenciará o juízo sobre a Terra, precisamente ao término desta dispensação. É isto que Paulo anuncia aos crentes de Tessalônica, que já haviam aprendido a amar os seus inimigos. Independentemente deste amor, que é o mesmo amor que Deus tinha a eles, era preciso ter em conta que o justo juiz não deixaria de dar a justa retribuição àqueles que perseguissem, prejudicassem aqueles crentes e se mantivessem rebeldes à voz do Senhor. Este período do juízo dar-se-á a partir do instante da volta de Cristo, que é o que espera a igreja, que se livrará desta ira futura (I Ts.1:10).

2. Formas principais da comunicação divina. A despeito de o que foi falado nos itens 1 e 2 acima deve-se enfatizar as formas como Deus tem se comunicado ao ser humano. Várias foram as formas, dentre elas destacamos:

a) Comunicação verbal. No começo Deus se comunicava verbalmente com o homem e este passava as informações aos seus descendentes. Pelo que se percebe no texto de Gêneses 3:8-10, antes da queda Deus falava com o homem pessoalmente e verbalmente. Como foi dito na introdução, a comunicação é uma característica fundamental do Deus da Bíblia, que O difere dos falsos deuses, que são frutos da imaginação humana. Deus, em sua transcendência, sempre quis e quer comunicar-se com o ser humano de forma imanente, para demonstrar seu amor e seu cuidado, visando a sua salvação.  Deus fez em todas as dispensações.

Deus fez o homem perfeito, mas após a queda tudo ficou diferente do que era antes. Com o passar dos anos a corrupção generalizou-se na sociedade pré-noêmica (Viu o Senhor que era grande a maldade do homem na terra, e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era má continuamente(Gn 6.5). As distorções certamente seriam inseridas na verdadeira história, se não houvesse a intervenção divina trazendo o dilúvio sobre a terra, levando à morte toda aquela sociedade, excetuando-se a família do patriarca Noé. Este, pela Graça de Deus, conservou a história para ser outra vez disseminada entre seus descendentes.

A Comunicação continuou verbal depois de Noé. Com o aparecimento das línguas(Gn 11.7), e a dispersão do povo(Gn 11. 8), a história corria sério risco de ser perdida. Deus chamou a Abraão e pôs nele a Sua Palavra de forma mais clara e objetiva. O Patriarca deteve então, por confiabilidade, a história passada pelos seus ancestrais juntamente com as palavras de orientação e proféticas do Todo-Poderoso. A Palavra de Deus continuou sendo transmitida oralmente até Moisés.

b) A comunicação através da natureza. Deus mesmo se encarregou de revelar a si próprio por meio da chamada revelação natural, na qual Ele utiliza a natureza para demonstrar à humanidade seus atributos. O Salmo 19 mostra o conteúdo dessa revelação: Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite.  Não há fala, nem palavras; não se lhes ouve a voz.  Por toda a terra estende-se a sua linha, e as suas palavras até os confins do mundo”(Sl 19:1-4). Está escrito, também: "Pois os seus atributos invisíveis, o seu eterno poder e divindade, são claramente vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante as coisas criadas, de modo que eles são inescusáveis"(Rm 1.20).

A conseqüência de se desprezar o conhecimento desta revelação é o completo afastamento de Deus e o abandono das coisas tidas por naturais pela prática das antinaturanais, como as reveladas em Romanos 1. Ninguém, portanto, pode desprezar a mensagem de Deus e ficar impune, como aconteceu em todas as dispensações, já vistas no item 1 acima.

c) Comunicação falada e escrita. Conhecer a Deus é indispensável para o homem entender sua origem e seu destino, como ser racional. Esse conhecimento pode ser obtido através da revelação natural, ou seja, pelas coisas criadas, pela natureza. Porém, o livro da natureza, somente, não dá uma visão correta da pessoa de Deus. Daí porque povos primitivos, valendo-se da mensagem da natureza, imaginaram que seus elementos (os astros, o vento, os mares), seriam deuses e teriam dado origem aos outros seres. Somente pela Bíblia, a revelação especial de Deus, o homem pode verdadeiramente conhecer a Deus, nos limites do que Ele próprio o quis revelar.

Dentro dos objetivos de Deus de fazer de Israel uma Nação sacerdotal e santa (e vós sereis para mim reino sacerdotal e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel, Ex 19.6) a sua Palavra não poderia continuar sendo manifestada de forma verbal. A Palavra de Deus começou então ser passada a homens especiais através de inspiração divina e este a transcrevia visando deixar por escrito para toda a humanidade a história da criação, da caminhada de seus servos e o desfecho final de forma inequívoca e comprobatória da humanidade. Depois Deus continuou falando com os seus servos e eles continuaram a transcrever as suas Palavras até completar o Antigo Testamento.

Depois da Assunção de Jesus Cristo, Deus continuou falando verbalmente, de forma mais intensa com a presença contundente do Espírito Santo (Atos 2), enquanto os seus servos escreviam e montavam os livros do Novo Testamentos, completando assim o compêndio que hoje nós conhecemos com  Bíblia Sagrada.

O adversário de Deus procura desacreditar a sua Palavra, proclamando a mensagem contrária à Verdade, espalhando a idéia de que a Bíblia apenas contém a Palavra de Deus, mas não é a Palavra de Deus. Mas, a Bíblia não apenas contém, mas é a Palavra de Deus, que comunica ao homem sua vontade, seu amor e salvação. Desde o início da Criação, no Éden, o Diabo tem procurado desqualificar a Palavra de Deus, procurando fazer com que os homens creiam que ela não passa de mensagem de origem humana ou sem o valor que ela se apresenta. Na tentação, o adversário levou a mulher a crer que o que Deus dissera não precisava ser levado a sério. Deus ordenou que o homem deveria obedecer à sua Palavra, não tocando na árvore da ciência do bem e do mal, que se constituía num meio de prova de fidelidade do homem ao seu Criador, considerando que lhe fora concedido o livre-arbítrio, a fim de que o mesmo pudesse justificar ser imagem e semelhança de Deus. Ali, houve o primeiro teste de Deus para com o ser humano - “Então, a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis”(Gn 3.4). Mas a mulher caiu na tentação (lTm 2.14), enganada pelo adversário; certamente usando sua influência sobre o esposo, levou-o a participar da queda. O Diabo conseguiu fazer com que o ser criado não aceitasse a Palavra de Deus.

A Bíblia Sagrada é a Palavra de Deus, ou seja, a revelação de Deus ao homem e, por isso, tudo que quisermos saber a respeito de Deus e que é relevante para a nossa salvação se encontra neste livro sagrado, fruto de uma revelação progressiva que o Senhor foi dando aos homens, durante um espaço de mais de mil e quinhentos anos.

Como a Bíblia Sagrada tem como seu único autor o próprio Deus, temos que esta obra apresenta uma unidade, um conjunto de ensinamentos que foi sendo revelado aos homens durante o tempo da inspiração das Escrituras. Estes ensinos dizem respeito a Deus, ao homem e ao processo pelo qual Deus deseja ter o homem em sua companhia, mesmo depois que o homem quis se tornar independente de Deus, negando-Lhe obediência. Está escrito: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça”(2 Tm 3:16).

Jesus disse: “Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só jota ou um só til, até que tudo seja cumprido”(Mt 5:18). Também disse: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar” (Mt 24:35).

Em Gálatas 3:16, Paulo baseia uma doutrina inteira sobre uma única letra, quando diz: “As promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo”. Cada palavra, cada letra das Escrituras foi inspirada por Deus e é “... proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça” (2 Tm 3:16b). 

Em Apocalipse 22:18 e 19, João escreve um alerta veemente contra aqueles que omitem ou acrescentam alguma palavra quando diz: ”Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro; e, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro.” As doutrinas da revelação e da inspiração nada seriam sem a doutrina da preservação das Escrituras.

Portanto, ao longo dos séculos Deus tem comunicado ao homem de várias formas, mas nestes últimos tempos Ele se revela através de Sua Palavra.  “Assim diz o Senhor... todas as palavras que te mando que lhes fales; não omitas uma só palavra”(Jr 26:2).

d) Jesus Cristo, a plenitude da comunicação de Deus com a humanidade. A comunicação de Deus com a humanidade atingiu seu ápice na pessoa de Jesus, onde Deus não apenas foi visto pelos homens, mas mostrou seu poder curando, libertando e salvando. Em uma época em que as pessoas tinham dificuldade de falar com Deus de forma correta, Jesus ensinou a orar. Em Jesus, podemos ver a Pessoa de Deus, manifestando-se e providenciando a Salvação. Quem quisesse tocar Deus, tocaria Jesus. Quem quisesse ver Deus chorando ou rindo, bastava olhar para Jesus. A Bíblia diz: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho”((Hb 1:1). Portanto, Jesus Cristo é a revelação sublime(Jo 1:14,18), pois não se trata de uma comunicação através das palavras de um profeta, mas de uma revelação de Deus por meio de uma Pessoa santíssima e co-eterna com o Pai (João 1:1; 14:9; Hb 1:1-3).

e) A crucificação de Jesus – a ponte de salvação e comunicação entre o homem e Deus. Quando Jesus Cristo foi crucificado, assumindo os pecados da raça humana, naquele exato momento criou-se uma ponte de Salvação e comunicação entre o homem pecador e Deus Santo. Vamos recapitular um fato espantoso que aconteceu quando Cristo estava na cruz. Veja: “E rasgou-se ao meio o véu do templo”(Lc 23:45). Para que servia este véu? Servia para separar o homem de Deus. Contudo, Jesus veio para proporcionar ao homem o privilégio de conversar diretamente com Deus por meio dele mesmo. Jesus disse: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”(João 14:6).  Paulo, inspirado pelo Espírito Santo disse: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem”(1 Tm 2:5). Este princípio é válido para salvação e comunicação.

II – A COMUNICAÇÃO DE DEUS POR MEIO DO SISLÊNCIO

Vimos no item 2 do tópico anterior deste subsídio que ao longo da história da humanidade Deus tem falado com o homem por diversas formas ou métodos: por comunicação direta; através da natureza; através da Palavra escrita(a Bíblia Sagrada); através dos profetas; através de Jesus Cristo – a Plenitude da comunicação de Deus com o homem. Todavia, se comunicar através do silêncio parece algo descabido, haja vista que a comunicação possui dois lados: um transmite a mensagem e o outro a recebe. É bem certo que para se comunicar, na maioria das vezes, se requer silêncio, mas, utilizar o silêncio como meio para se comunicar, aí não há como absorver sem contestação. Todavia, o Deus da Bíblia utiliza-se dos mais variados meios possíveis para se comunicar com o ser humano, mesmo sendo por meio do silencio.

Ao longo da história, vários homens de Deus provaram da comunicação silenciosa de Deus. Habacuque foi um deles. Ele se impacienta diante da comunicação silenciosa de Deus a tal ponto de fazer a seguinte interrogação: “Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás?”(Hc 1:2). Muitos nos momentos de depressão, de angústia de alma acabam espiritualizando as coisas, podendo inclusive cantar hinos que falem sobre como devemos aguardar o tempo de Deus etc., porém durante o período de sofrimento pelo qual estamos passando e em que Deus apresenta-se em silêncio só conseguimos muitas das vezes dizer: “Eu estou me afogando”. Foi exatamente o que Habacuque expressou ao falar com o Eterno da forma como fez. Ele não foi superespiritual, não se apresentou como supercrente, simplesmente disse a Deus que seu silêncio o estava incomodando, que precisava de respostas para suas angústias e dilemas, reconhecendo que só Ele tem as respostas certas, respostas de vida, de vida eterna.

Devemos reconhecer que a vida está repleta de períodos de silêncio de Deus, mas esses períodos são tão relevantes quanto aqueles em que ele fala conosco. Quem de nós ficou sem resposta? O silêncio causa angustia. Como demora o silêncio dos médicos quando alguém está na mesa de cirurgia! Como é duro o silêncio quando, depois de um acidente, precisamos aguardar a próxima notícia, sem poder fazer nada! Habacuque clama ao Senhor: Até quando? Deus silencia. Silenciou enquanto Abraão caminhava até o monte para sacrificar Isaque; Abraão com certeza perguntou muitas vezes por quê? Até que num determinado momento Deus fala novamente.

O autor do salmo 13 viveu, também, o momento do silêncio de Deus. Ele clamou: “Até quando, ó Senhor, te esquecerás de mim? Para sempre? Até quando esconderás de mim o teu rosto?  Até quando encherei de cuidados a minha alma, tendo tristeza no meu coração cada dia? Até quando o meu inimigo se exaltará sobre mim?’(Sl 13:1,2).

Jesus Cristo, na cruz do calvário, também, viveu esse momento do silêncio do Pai. Esse foi o clamor de Jesus na cruz: “Por que me abandonaste?” (Mt 27:46 Sl 22: 2).

Clamar “até quando?’ Não é fraqueza. É certeza de saber que alguém nos ouve e que temos a liberdade de invocá-lo, intercedendo pelo povo. Quem invoca o Senhor na angústia sabe que o braço do Senhor não está encolhido que não possa salvar, e o seu ouvido tão surdo que não possa ouvir (Is 59:1). Ele mesmo prometeu ao seu povo: Vocês me procurarão e me acharão quando me procurarem de todo o coração (Jr 29:13). Portanto, abra o seu coração angustiado ao Senhor! Ore o salmo 13. Que possamos dizer como o salmista Asafe:” Ó Deus, não guardes silêncio; não te cales nem fiques impassível, ó Deus”(Sl 83:1).

Fatores que ofuscam a voz de Deus. Em muitos momentos de nossa vida Deus fala conosco e não o ouvimos, por causa de fatores circunstanciais em nossa vida, sendo eles, muitas vezes, oriundas de nossa vaidade e soberba. Destacam-se alguns:

1. Os “sons” desagradáveis do sofrimento humano. Neste aspecto a própria vida parece contradizer a concepção de um Deus bom enquanto tudo à nossa volta é tristeza, miséria e abandono. Nós nos esforçamos para ouvir a sua voz, e nosso empenho é respondido pelos sons do seu silêncio.

2. A comemoração da prosperidade. Nossos bons momentos são também turbulentos, neles a nossa concentração é tão autodirigida que pode ocorrer de nunca nos ligarmos de abaixar a música e acabar com a festa. Acabamos assim por não criar o silêncio necessário para podermos ouvir a voz de Deus.

3. Indiferentismo à voz de Deus. Algumas vezes não ouvimos a voz de Deus pela nossa negligência, desinteresse ou falta de experiência e persistência em ouvir. Deus tem falado conosco, mas infelizmente não temos aplicado a sua palavra às nossas vidas.

4. A deficiência auditiva caracterizada pela limitação do homem. A voz de Deus emite vibrações para as quais não estamos equipados para ouvir. A palavra de Deus diz “Aquele que tem ouvidos, ouça”. Mas, e aqueles que não têm ouvido para ouvir? Poderíamos dizer que a maioria de nós não tem ouvidos para ouvir a voz de Deus. E o que significa ter ouvidos? Significa que estamos prontos e equipados para ouvir as idéias de Deus para a nossa vida na língua Dele. Percebemos o mundo através de nossos cinco sentidos só que estes são limitados para podermos ouvir sua voz. Existem coisas sobre Deus que são discernidas espiritualmente, mediante experiências de vida e da leitura das Escrituras, é quase como se nós tivéssemos um sexto sentido. Às vezes Deus expõe seus pensamentos através do silêncio. A sua voz não tem tanta eloqüência quanto o seu silêncio.

PARTE II – COMENTÁRIO DOS TÓPICOS PROPOSTOS(Pr Elinaldo Renovato de Lima)

I – A COMUNICAÇÃO DIRETA

1. Na criação. A Bíblia nos mostra com clareza que desde o principio Deus se comunicava com o homem de forma direta. Ao criá-lo, imediatamente efundiu-lhe o fôlego da vida, transformando-o em alma vivente. “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente”(Gn 2:7).

Resumo: Deus falava diretamente com Adão na viração do dia e todos os dias.

2. Evitando a solidão.Antes da queda, o homem se comunicava com Deus livremente. Todavia, o Eterno percebera que sua criatura necessitava de algo mais. Ela precisava relacionar-se com alguém da mesma natureza. Foi aí que o Senhor decidiu criar a mulher a fim de livrar o homem da solidão(Gn 2:18,22,23).

Resumo: Deus viu no íntimo de Adão que ele também precisava de uma companheira como todos os outros machos que havia no planeta (animais, aves, etc..), também era o plano de Deus povoar toda a Terra com muitos filhos, todos a imagem e semelhança dEle.

3. A comunicação com o primeiro casal. Não se sabe quanto tempo nossos primeiros pais viveram em perfeita harmonia, antes de pecarem. O fato é que antes da entrada do mal no mundo, Deus costumava conversar com o casal pela “viração do dia”(Gn 3:8a). Certamente, o Senhor propiciava a Adão e Eva momentos agradabilíssimos de conversa e aprendizado, enchendo-os de muita paz e indizível alegria.

Resumo: A comunhão que deveria perdurar para sempre. Todos os dias Deus vinha ao ser humano, achava prazer em se comunicar com sua criatura. Adão era inteligente, era sábio, era o mais perfeito ser já criado por DEUS.

II - EFEITOS DA QUEDA

1. A comunicação prejudicada. Com a queda, o homem perdeu a comunhão e a comunicação com o Criador. Antes, Adão e Eva deleitavam-se em ouvir a suave e melódica voz do Altíssimo. Agora, com o advento do pecado, o medo apoderou-se deles dificultando-lhes o pleno relacionamento com Deus(Gn 3:8-10).

Resumo: Eva sendo enganada e Adão desobedecendo a Deus, entrou o pecado no mundo e a morte espiritual passou a existir, a comunicação que antes era perfeita e prazerosa passou a ser impessoal, restrita e quase impossível. Agora só havia lugar para juízo, juízo sobre o pecado.

2. O conhecimento da discórdia. Inquirido sobre seu pecado, o homem pôs-se a culpar sua companheira que, por sua vez, culpou a serpente(Gn 3:9-13). Eis aí a primeira desavença entre os seres humanos e suas funestas conseqüências. Na maioria das vezes, os homens não se entendem em função da incapacidade de assumirem os próprios erros. Satanás continua enganando aos que se descuidam do relacionamento com Deus( 2 Co 11:3). Para lograr êxito nesse intuito, transfigura-se até mesmo em anjo(2 Co 11:14).

Resumo: Deus pergunta a Eva sobre o caso do pecado, ela acusa a serpente (Satanás); Deus pergunta a Adão, ele acusa a mulher. Agora, além do homem estar afastado de Deus, também causa discórdia entre o casal. A vida daí para frente não seria felicidade somente, mas trabalho árduo e comunhão difícil entre o casal e Deus.

3. A maldição da serpente e a redenção prenunciada. Quase ninguém se sente bem ao lado de uma serpente. Ela nos causa sentimento de pavor e medo, talvez  por ser símbolo da maldição e do Diabo(Ap 12:9;20:2). Após a queda, Deus pôs inimizade entre a serpente e a mulher. Esta foi condenada a sentir fortes dores no parto, passando a ser dominada pelo marido(Gn 3:16; Ef 5:24). Naquele ambiente tenso, Deus também condenou a serpente, e anunciou a redenção da humanidade através da “semente da mulher”, que e Cristo Jesus, nosso Salvador(Gn 3:14,15).

Resumo: Deus traz o juízo sobre o pecado: Eva sentiria dores ao dar à luz; seu marido devido a perca da confiança lhe submeteria a uma posição inferior, lhe humilharia e desprezaria; Adão agora deveria prover seu próprio sustento com suor e dores; a natureza exigiria dele um árduo trabalho para que se alimentasse.

III - DEUS COMUNICA-SE COM O HOMEM

Deus é transcendente e imanente. Ou seja, a despeito de habitar nas alturas mais insondáveis, e apesar de infinito e imenso, não permanece alheio às suas criaturas. Assim, ao longo dos séculos, o Eterno vem se comunicando com o homem; direta ou indiretamente.

1. Por meio dos patriarcas. Deus faliu com Noé, anunciando-lhe a destruição do gênero humano(Gn 6:1-7). Também se comunicou com Abraão, ordenando-lhe que saísse do meio de sua parentela a fim de torná-lo uma bênção para todas as famílias da terra(Gn 12:1-3). O Senhor ouviu as orações de Isaque, falou com Jacó, e fez-lhes grandiosas promessas(Gn 25:21-23; 28:13-15). O Todo-Poderoso sempre se comunicou com homens, transmitindo-lhes sua vontade.

Resumo: Deus vinha se comunicando na mente de Noé, Abraão, Isaque, Jacó e Moisés. Também Deus se manifestava em teofanias. 

2. Por meio dos profetas.No Antigo Testamento, Deus usou diversos profetas para transmitir sua poderosa mensagem. Por intermédio desses valorosos arautos, falou o Senhor ao povo, aos reis, aos juizes e tantos quanto quis revelar sua vontade(Hb 1:1,2). Ao profeta Moisés, falou diretamente(Ex 3:1-22; At 3:22). Em o Novo Testamento, usou de modo especial a boca de João Batista, Ágabo, entre outros. Todos esses homens foram porta-vozes dos oráculos divinos à humanidade.

Resumo: Samuel, Davi e todos os demais profetas receberam visões, sonhos, revelações e ouviram a voz do todo poderoso; transmitiram suas mensagens oralmente, verbalmente e através de escritos inspirados e ordenados por Deus. Depois dos profetas do Antigo Testamento vieram os do Novo Testamento como João Batista (Ainda da classe dos antigos, sendo o último desses); após o batismo com o Espírito Santo, vem os apóstolos e Paulo como um "abortivo" que escrevem inspirados pelo Espírito Santo os evangelhos, as cartas e as profecias. O profeta Ágabo (sendo o primeiro dos Novos profetas que já possuem os dons do Espírito Santo residente em si mesmos), também é usado como os profetas de hoje. Deus se comunica através de anjos, visões, sonhos, revelações e voz audível, tanto na mente como em aparecimento do próprio Jesus.

IV - A COMUNICAÇÃO PELA REVELAÇÃO

Deus também se comunica através de suas várias maneiras de se revelar aos homens.

1. Revelação geral ou natural. É aquela em que o Senhor se revela por meio da natureza e da consciência humana. No que concerne à natureza, a Bíblia nos é clara: “Os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos”(Sl 19:1; Rm 1:19,20). Quanto à consciência, Deus se utiliza da comunicação não - verbal para revelar aos homens toda sua vontade, como vemos em sua Palavra: ”... os quais mostram a obra da lei escrita no seu coração, testificando juntamente a sua consciência e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os”(Rm 2:15). A revelação geral ou natural é dirigida a todos os homens, e pode ser absorvida pela razão.

Resumo: Aqui todos os homens, sem exceção, tanto crentes como descrentes recebem a comunicação de Deus através de suas consciências (sabem no íntimo que Deus existe e sabem o que lhe desagrada e o que lhe agrada), também recebem a comunicação de que Deus existe através das maravilhosas coisas criadas por Deus, o universo, as árvores, os animais, o próprio ser humano, tudo é motivo de Deus ser glorificado pelo homem. Só Deus poderia criar tudo isso e de maneira tão perfeita.

2. Revelação especial.  É aquela em que Deus emprega duas formas especiais para se comunicar com o homem: a Palavra escrita e Cristo.

a) Por meio da Palavra. Deus ordenou a Moisés que escrevesse sua mensagem revelada “num livro”(Ex 17:14). A revelação escrita substitui a tradição oral, como testemunho da existência e comunicação de Deus(Ex 34:27; Jr 30:2; Ap 1:19). Essa revelação escrita é chamada de Escritura( 2 Tm 3:16), ou Escrituras(Mt 22:29; 6:56).

Resumo: A Palavra de Deus é tão perfeita que já seria o maior motivo para o homem se render aos Seus pés em adoração.  A mensagem escrita inspirada pelo Espírito Santo é uma forma de Deus se comunicar com o homem, revelando-lhe seu plano de redenção, seu plano restauração e de salvação. A palavra ouvida traz vida, se ouvida como mensagem de DEUS.

b) Por meio de Cristo. Essa revelação é sublime(Jo 1:14,18). Não se trata de uma comunicação através das palavras de um profeta, mas de uma revelação de Deus por meio de uma Pessoa santíssima e co-eterna com o Pai (João 1:1; 14:9; Hb 1:1-3). O propósito da revelação especial é conduzir o homem a Deus (João 14:6-11). Nela, encontramos o plano divino para a salvação de todo ser humano.

A revelação especial de Deus foi dada aos homens tanto pelas Escrituras quanto pelo Verbo de Deus. Estes são os mais completos meios pelos quais Deus se revelou à humanidade(Mt 27:29; João 5:39).

Resumo: O próprio Deus vem ao homem, não como Espírito que é, mas como semelhança de homem. O verbo de Deus se manifesta entre os homens, mas os homens não o reconheceram, antes o desprezaram, o perseguiram e o mataram. Graças a Deus que esse era mesmo o plano de Deus para nos salvar. Jesus Cristo veio para morrer em nosso lugar, levar nossos pecados sobre Ele. O plano de Deus foi realizado, cabe agora a todos os seres humanos crerem e aceitarem isso para serem salvos. Glória a DEUS!.

CONCLUSÃO

Deus ainda se mantém ocupado na tarefa de se comunicar com a humanidade. Ele não está limitado de qualquer forma. Ele é livre para falar diretamente como, quando e com quem Lhe parecer necessário. Contudo, Deus fala primariamente através das Escrituras, a sua Palavra; do contrário, seríamos vítimas do subjetivismo e da confusão. Freqüentemente, ouvimos alguém afirmar que Deus lhe "disse" algo. Embora isto seja possível, permanece o fato de que qualquer revelação presente deverá sempre estar em harmonia com a revelação feita na Palavra. A Palavra de Deus, a Bíblia, continua sendo normativa para a vontade de Deus, e nenhuma contradição seria aceitável. Portanto, através das Escrituras, pelo milagre da inspiração, Deus não apenas falou num passado remoto, mas continua falando hoje. O Espírito Santo é o grande intérprete, aquele que torna atual a mensagem das Escrituras.

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Elaboração: Luciano de Paula Lourenço – Prof EBD – Assembléia de Deus – Ministério Bela Vista. E-Mail: luloure@yahoo.com.br

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Fonte de Pesquisa: Bíblia de Estudo-Aplicação Pessoal. Bíblia de Estudo Pentecostal. O novo dicionário da Bíblia. Revista o Ensinador Cristão. A comunicação divina - Pr. Elinaldo Renovato de Lima. O silencio de Deus – Reginaldo Cunha